15 abril 2009

Ele

"Eu ví seus olhos brilharem no escuro, enquanto ia em sua direção. Eu ouvi sua respiração excitada. Senti seu cheiro de rosas de novo, e avancei para ela. Estava escuro."


Melanie e eu estávamos de novo em nosso sofá, tarde da noite, a TV quase muda, silencio cúmplice, e a casa adormecida. Todos os anos, em nossas ferias, minha prima e eu nos reuníamos na fazenda da Avó Julieta, e ficávamos juntas imersas em nossas noticias, absortas nas mudanças de uma e de outra, desde o ano anterior. Contávamos historias, lembrávamos nossas amigas, e, depois de um tempo, nossos namorados. Trocávamos experiências, e confidencias, problemas com nossos pais e nossos amigos. Melanie era minha melhor amiga. Era a pessoa em que eu mais confiava.

O filme hoje era sobre zumbis, e era singularmente ruim. Alugado na pequena video-locadora da cidade minúscula onde morava minha avó, Era claro que o diretor somente se preocupara com exibiçoes de criaturas comendo gente e derramamento de sangue, sem nenhuma trama que pudéssemos acompanhar. Mel me contava a piada infame que seu colega de sala lhe dissera, e riamos baixinho, para não acordar os outros na casa. Não que fossem muitos, só estávamos Mel e eu, e minha tia solteirona, e minha avó, mas a avó Julieta tem sono leve.

Agora era aquele momento depois de uma historia em que você não sabe bem como preencher o silencio, e nos espreguiçamos diante da TV, observando tranquilamente que uma moçinha loira que não era das mais espertas estava sendo arrastada para o celeiro por um braço misterioso, e ela gritava com gosto.

-Manuela, você não sabe como senti sua falta. Esse ano está difícil... Eu te disse que a Profª Mariana vai ser transferida? - Minha prima adorava a Professora de literatura com uma dedicação quase obsessiva. - Ela vai dar aula em algum lugar perto da mãe.

- Ah, vai ser bom para ela, não? Quero dizer, a mãe dela deve ser bem velha, a professora não tinha quase 47 anos?


- É, suponho que sim, mas... - Melanie suspirou. - As vezes dá vontade de fugir. - Ela refletiu.

Fiquei em silencio. Mal ela sabia o quão verdadeiras eram suas palavras. Mal ela sabia que também eu quisera fugir. O que eu não daria para ter fugido com Ele na época em que podia. E eu não podia contar isso a ela. Não podia contar a ninguém. Senti-me revoltada. Segredos. Sempre segredos. Nunca ia acabar de verdade. Mas Ele me deixara. Fora seguir a vida que planejara para nos dois e me deixou aqui, e eu não ia vê-lo nunca mais. Eu não O conhecia mais. Eu não sabia onde Ele estava. Ou com quem estava.

Sempre, sempre fora do lugar. Jamais me encontraria, jamais seria tão inteira como fora ao lado Dele. Não ia esquecê-Lo. Não conseguiria substituí-Lo. Quis chorar. Mas Melanie se preocuparia.

-E se - eu comecei - nos fugíssemos? Ah, vamos essa noite, Melanie, vamos sair e ver a lua! Podemos subir a colina!

-Mas Manuela! Tia Carmem! A vó Julieta! Não podemos simplesmente sair no meio da noite! Está louca?

-Elas não iriam acordar, voltaríamos cedo. Antes de amanhecer, e nem saberia que saímos! Por favor! - Eu supliquei.

-Você não está falando serio!

-Claro que estou! Não vê? É o plano perfeito. Podemos levar uma câmera, podemos deixar uma mensagem numa arvore! É um morro tão bonito!

-Você está diferente, Manuela. Parece que não a reconheço.

Eu aguardei. Ela me olhou, em dúvida.

-Não sei se isto é certo. Elas vão ficar realmente preocupadas, e realmente zangadas. - seus olhos eram temerosos.

Mas eu sabia que a batalha estava à meu favor. Eu sabia como Mel adorava aquelas árvores, as pedras da colina.

-Por favor? - perguntei de novo - Será divertido.

-Ah, certo - ela suspirou derrotada. Eu havia esperado uma batalha mais difícil. Talvez Melanie também tivesse seus segredos.

Subimos furtivamente para colocar nossos casacos e as botas. Mel agarrou um gorro, e luvas também. Olhei-a com as sobrancelhas erguidas.

-Está frio lá fora! - ela protestou.

-Certo, certo. Vamos.

Descemos as escadas de meias, para os degraus não rangerem, e na porta, pegamos uma lanterna.

E estes foram todos os nossos preparativos para nossa "aventura" na colina verde, a mais imprudente que já havíamos feito. A mais súbita.

Caminhamos em silencio por um tempo, até passarmos pela "casa dos cavalos", e então nos atentamos para o que realmente estávamos fazendo. Fugindo no meio da noite, em direção à uma colina, sem autorização de ninguém. Percebi que minha prima estava exultante, e eu também me senti livre com nunca estivera, desde que Ele fora embora, antes que Ele chegasse.


Corremos, e gargalhamos, e cantamos, como loucas a quem foi dado um dia de liberdade. Eu não
sabia por que me fazia tão bem. Não sabia se era a lua cheia que deixava tudo monocromático, ou o som suave dos nossos pés na grama úmida, o vento que me levava os cabelos ao céu, mas eu sentia que podia voar. Podia sair correndo e me atirar, e o aroma de flores me levaria para o paraíso. Não sabia, e não ligava mais para onde iríamos, o que estávamos fazendo, qual era nosso destino. Corria pelas flores, rasguei minha calça nos espinhos dos arbustos. Perfume de flores, de onde ele vinha? Melanie dançava comigo, jogava sua jaqueta ao vento, e ela ria abertamente para mim, nenhuma barreira mais entre nós. E eu não me importava mais se nossos excessos iriam acordar todos em nossa casa. Eu não via mais a casa, éramos somente nós, voando para o infinito, sem nenhum controle.
Não estava mais escuro, meus olhos de gato viam o mundo como que pela primeira vês, As flores, a lua, o mundo era claro e preto e branco e brilhante, e eu O vi. Sim, Ele estava comigo, e se aproximava, sorridente, os olhos negros, ou seria o luar?

E eu gritei por Ele, eu corri para Ele e me atirei para Ele, e dançamos juntos o nosso primeiro baile, e Ele me amava, e eu desejei que pudesse prendê-lo, tê-lo para sempre, e eu O desejei, o puxei para mim, e O senti ao meu lado, e Ele me beijou, e Seus dentes provaram minha carne, e eu Lhe pertenci até o fundo de minha alma. Eu não lembrava de minha prima, de minha casa, de minha avó, minha mãe e meus sonhos, eu era só Dele, para Ele, e eu queria que ele viesse e me tomasse a força.


Seus lábios não deixaram meu pescoço, não me soltaram, meu pescoço estava quente, e meu coração se esfriava. Eu O amava mais do que minha vida naquela hora, eu queria que morrêssemos ali, juntos, ali onde ele não podia, não queria me deixar... Mas ví o que ele me dissera, o que ele me fizera, e não pude culpa-lo. Da mesma forma como me deixou, ele voltou para mim, eu desfaleci em seus braços, derramei minha última lágrima, e adormeci para sempre, com a marca de seu beijo em minha alma, e em meus sonhos, senti que alcançara a colina verde, e que lá fiquei para sempre.




“Mas quando Manuela se separou de mim, um vulto se adiantou para ela, e não era mais do que um fantasma lindo, e ele drenou seu sangue e sua vida, antes de se voltar para mim. Eu estava pronta. Mas o sol raiou, e eu fiquei sozinha.”