21 junho 2009

Um Livro Sem Título - conto

Tudo estava sonolento e frio. As 6h00 de um sábado, um ônibus partira em expedição à Ouro Preto, levando 32 alunos e 2 professores. Carolina, que lecionava História da Arte, e eu, Raul, História Geral.
Devido ao clima e ao horário, 32 alunos demoníacos vegetavam em seus lugares, sem olhar para nada específico, mas não me deixei enganar: assim que o sol saísse e eles recebessem o primeiro estímulo, de algum engraçadinho genérico que acompanha todas as turmas, e a algazarra se instalaria como status majoritário naquela população de anfíbios. Nada de novo.
A professora Carolina era uma mulher agradável, mas enérgica. Eu procurava não ficar tempo demasiado em sua companhia, para não encorajar monólogos sobre a criminalidade juvenil, ou o aquecimento global, ou pior. Há um limite de vezes que alguém pode ouvir esses discursos e ainda se interessar. Por hora, o meu fora atingido.
Por conta disso, deixei que uma aluna, uma certa Amanda C. , me distraísse com suas teorias sobre como os aliados deveriam ter vencido Hitler, ou erros que a URSS cometeu, e outros tópicos que andara pesquisando, de modo que acabei me sentando com ele para terminar a conversa, ficando separado de Carolina por 2 pessoas, e a salvo de ser vitima de seus assaltos. A conversa de Amanda era muito mais descontraída e mais fácil de acompanhar. Quando ela se calou, o silencio foi agradável e relaxante, me recostei no assento, feliz com a perspectiva de uma viajem sem grandes incidentes.
Amanda era nova na escola, e chegara 2 meses após o inicio do ano letivo, época em que as grandes “panelinhas” já haviam se formado, claro, sem incluí-la. Não chamava muita atenção, portanto eu não podia dizer grande coisa dela. Se atinha as aulas com convicção e sempre fazia perguntas puxando novos tópicos para a meteria, sem interferir demais. Sentava-se na primeira carteira, trabalhava em silencio.Cabelos castanhos desfiados, geralmente presos, e roupas discretas.Realmente, eu nunca prestava muita atenção nela.
A viagem corria como esperado. Um grupo já se unia, fofocando, no fundo do ônibus, e as “crianças” iam despertando. Carol já repreendera 2 rapazes. Em dado momento, a garota ao meu lado abaixou-se para pegar um livro na mochila. Olhei meio de lado, mas não pude ver a capa. Pena. Eu mesmo não trouxera nada para fazer no caminho, grande esquecimento, agora estava aqui, à toa, sem sequer sanar minha curiosidade sobre o livro de Amanda, o que poderia ter me distraído. Não a quis interromper e perguntar, já que eu mesmo detestava ser incomodado quando ne dedicava à alguma coisa. Mas a curiosidade se aguçou.
Eu estava com dor de cabeça, o que me tornava facilmente irritável. Tomei um comprimido, e cheguei a tentar dormir, mas o barulho da molecada não deixou. Tentei me concentrar na estrada, mas o caminho era muito familiar para prender minha atenção. Por fim,me voltei para a garota que lia, silenciosa, sem olhar pra mim, ou pra ninguém.
O único movimento que ela fazia era virar as paginas do misterioso (para mim) livro. Tentei lê-lo por cima dela, mas as letras eram muito pequenas. Aborrecido, me concentrei nos detalhes.
Ela usava um tênis All-Star velho e desbotado, e até meio imundo. Pude ver um pedaço de sua meia, de listras verde e rosa, e notei que suas calças eram folgadas, ao contrario da moda justa seguida pelas outras garotas de sua idade. Uma jaqueta de moletom cinza, com o capuz jogado, e um gorro cor de cereja, constituíam o resto de sua vestimenta. Um dos cordões do capuz estava desfiado. O zíper não combinava. E eu ainda não sabia o que a bendita estava lendo.
Esse pensamento me surpreendeu. Afinal, porque era tão importante o que a garota estava lendo? Que diferença fazia? Ela ia continuar lendo e eu ia continuar entediado. Aonde iria me levar saber o nome da obra? Era ridículo! Eu simplesmente não deveria me interessar. Não vai me interessar,decidi. E voltei confiante a olhar para fora, sem duvidas de que não voltaria a pensar em Amanda, em seu livro, ou seu gorro estupidamente colorido...
Mas logo senti um comichão, um desejo de me virar e ver se ela ainda estava lendo, ver sua mão virar a pagina, ver se ainda estava ali, afinal, e não fora embora como fumaça que se desfaz no ar.”Não seja ridículo!”, disse uma voz em minha cabeça.”Você ouviria se ela saísse, não faz sentido algum.”.
Enquanto eu debatia a questão comigo mesmo, um ruído ao meu lado jogou minha resolução longe sem que eu sequer me desse conta. Virei-me bruscamente para ela, que congelou. Sua Mao estava puxando o zíper, e ela me encarou assustada, depois baixou o olhar, corando, mas sem dizer nada. Tardiamente percebi que fora a minha atitude que a constrangera, e desviei o olhar. Mas vi de lado todos os seus movimentos, como ela tirou uma manga da jaqueta de cada vez, sacudiu os cabelos após tirar o gorro, antes de prende-los com uma caneta verde.
O uniforme ficava folgado nela, como se quisesse esconder suas curvas, mas não disfarçava totalmente os seus seios, um pouco opulentos para o corpo magro. Fitei sua camiseta fascinado, espantado de nunca ter reparado antes que ela era uma garota atraente.
No momento em que mentalizei a palavra “atraente”, fiquei estático, antes de sacudir minha cabeça, confuso, num misto de raiva, negação e choque. Não. Não! Do que é que eu estava brincando? Essa garota, essa Amanda, fosse o que fosse, tinha 15 anos! Metade da minha idade! Era minha aluna, minha responsabilidade nesta viagem! Não devia, não podia achá-la atraente! Era um absurdo! Era ridículo! Seria um escândalo!
Tentei me acalmar. Me controlar, pelo menos. E enquanto dizia a mim mesmo que não havia nada de mais, qualquer um pode achar uma garota bonita, ela mecheu as pernas, cruzadas, e deixou mais uma, — uma única tira verde de sua meia, eu soube que era mentira. Não era só a aparência que chamara a minha atenção, havia algo mais, algo em Amanda que me prendera à ela no momento em que abrira o livro. Talvez fosse o próprio livro, quem saberia?
“Amor à milésima vista?” perguntei-me sarcasticamente. Mas como podia ser amor? Nem sequer conhecia Amanda bem. Podia um homem se apaixonar sem saber quem a pessoa que amava? Mas ainda assim, não sabia outro nome para o sentimento de carinho, de ternura que sentia nesse momento. Como uma flor que desabrocha na estação certa. “Estação certa”, pensei com amargura. Gostaria de ver o rosto dos diretores, dos docentes, dos pais dela, se soubessem disso.
E ela, que pensaria? Ficaria horrorizada, surpresa, com medo? Afinal, para ela, eu era um velho. De repente, todos os momentos em estivera em sua presença tinham um novo significado. Cada olhar, cada palavra, teria um significado diferente pra mim agora. Uma esperança surgiu de repente e trouxe com ela a duvida. Ela corara agora à pouco quando viu que eu a encarava ou quando foi flagrada me encarando. Eu não podia dizer, não conseguia me lembrar. Eu virara para ela e logo encontrei seus olhos, mas como fora a cena? Se pudesse trazê-la de volta...

Todos os alunos se retiraram da sala, e apenas restara eu no auditório. Pelo menos eu acreditava nisso, até ver um vulto ainda sentado no meio da sala. Era Amanda. Ela deixou seus materiais na carteira e ficou no meio da escada. Eu me dirigi a ela, em silencio, e parei à cerca de um metro de distancia.
—Tem alguma coisa que queira perguntar, alguma dúvida da aula?
—Não— ela respondeu simplesmente— não é sobre a aula.
Gelei de medo. Eu me esforçara nos últimos dias para ficar longe dela, para não olhar para ela, não pensar nela. Será que ela percebera?
Ela se sentou num degrau da escada, e eu me sentei ao seu lado sem pensar, porque em seguida quis levantar, e agora não podia fazê-lo sem ser extremamente grosseiro. Tentei ao menos manter meus olhos longe de qualquer parte dela, tentando não perceber o cheiro de chocolate dos seus cabelos. Ficamos parados por alguns minutos, e eu ouvia os passos velozes dos estudantes se dirigindo à saída, a alegria da perspectiva do fim de semana clara nas conversas e risos. Por fim, tive de quebrar i silencio. Fosse o que fosse, quanto antes melhor.
—Bem, do que se trata então?
Ela não respondeu com palavras. Seu corpo se voltou completamente para o meu, e ela se aproximou. Uma de suas mãos tocou meu ombro, meio que me alertando, me segurando onde eu estava. Eu tremia, paralisado. E então nossos lábios se tocaram.
Não sei quanto tempo nos beijamos. Naquele momento não havia nada que eu quisesse mais do que ficar com Amanda eternamente, sem nunca, nunca ter que explicar nada. Nossos lábios se explicariam, e jamais iríamos falar. Cedo demais, para mim, a razão voltou à minha mente. E a dor daquele momento foi insuportável, como se fosse me rasgar em dois: a parte que queria Amanda para sempre, que não ligava para ninguém mais, e o “eu” que pensava, que raciocinava e sabia que não daria certo jamais esse amor tão irracional.
Eu a afastei com delicadeza, com medo de feri-la se a tocasse descuidadamente, e olhei no fundo dos seus olhos. Olhos cor de mel, tão bonitos, tão límpidos. Olhos magoados, por minha rejeição, ou pela compreensão de nossa sina? Naquele momento, eu sabia que ela me amava também, que não importava a idade, ou o mundo, ou nada. Uma lagrima amargurada ocorreu pelos meus olhos, e a esfreguei com força, embaraçado. Dessa vez, foi ela quem falou primeiro. Sua voz estava tremula, e ela gaguejou, a barreira de auto-confiança e segurança rompida.
—Eu...eu pensei...você não parou de me olhar...excursão...––Ela também chorou, os lábios tremeram.
—Você pensou certo― eu disse inexpressivamente. Coloquei minhas mãos em seus ombros. Ela tremeu, e eu exitei, sem saber as palavras certas.―Se você quiser, eu partirei, para que possamos esquecer.
—Eu não quero que você vá!―Ela se exaltou, um certo desespero em sua voz e em seus olhos― Não faça isso, nos podemos... podemos fazer alguma coisa! Vamos tomar cuidado, ninguém precisa saber!
Eu tentei sorrir de forma reconfortante, mas talvez não tenha conseguido.
—Você é jovem, vai superar isso. Você sabe que nunca vamos ficar em paz. A idade e a minha condição de professor. Ninguém jamais aceitará isso. Você deve entender.― Eu a olhei, mas ela não olhava mais pra mim. As lagrimas faziam seus olhos brilharem mais, cintilando às luzes artificiais. Ela cantarolou alguma coisa baixinho.
—A estrela cadente veio encontrar o girassol
Mas o girassol já se havia virado...
―Eu não...― tentei interrompe-la , dizer algo, mas ela fez que “não” com a cabeça, e se levantou, recolheu a bolsa e os cadernos e correu vacilante até a porta.
―Adeus...―sussurrou, deixando a palavra no ar, e correu, chorando ainda, escondendo o rosto com os cadernos.
―Adeus!― Eu disse, sozinho, e continuei sentado naquele degrau, os olhos desfocados e perdidos onde Amanda desaparecera. Sozinho fiquei chorando, sem saber mais o que era certo fazer.