08 agosto 2010

Renan

Eu nunca tinha ido a um funeral.
Acho que até essa quinta-feira, ninguém que eu conhecia morreu. Bom, na verdade, sim. Minha avó faleceu no ano passado. Mas eu nunca tive um contato freqüente com ela. A maior parte da minha vida ela morou a 400 km de distancia de mim, e a gente se via uma ou duas vezes por ano. Eu fiquei triste quando minha avó morreu, é claro. Eu tive aquela sensação estranha de vazio onde uma pessoa costumava estar, mesmo que em segundo plano. Mas eu não fui ao velório, nem ao enterro. Ainda nem fui visitar no cemitério. Até sexta feira recente, eu nunca tive interesse, ou vi algum mérito nesse tipo de coisa. Eu considerava uma espécie de perda de tempo. Algo que as pessoas fazem irracionalmente, e que eu nunca me daria ao trabalho.
Quinta-feira agora, dia 5 de agosto, minha irmã ficou sabendo, por uma amiga comum, que um dos amigos mais próximos da escola antiga dela tinha sofrido, em pleno recreio da escola, um infarto fatal. Eu confesso que na hora eu não me importei muito com a morte dele em si. Eu estava mais preocupada era com a Helena. Eu não sabia bem se eu deveria tentar consolá-la, se eu deveria falar com ela, ou se seria melhor deixá-la absorver a noticia. Eu queria ajudar, mas não conhecia o caminho. Acho que eu perguntei uma ou duas vezes se ela estava bem. Ela disse que sim. Não sei se era verdade ou não. Eu preciso de tempo pra compreender o comportamento das pessoas. Eu não entendo na hora, e as vezes, isso é necessário. É uma deficiência minha. Eu a vi uma vês só com o rosto meio molhado de lágrimas. E não sabia o que fazer.
Quando ela me disse que um amigo dela tinha morrido, automaticamente eu perguntei quem. “O Renan”. “Ah!”. Eu não tinha idéia de quem fosse, pelo menos, não pelo nome. Eu pensei automaticamente em um outro amigo dela, que também fazia parte da “turma”, e que esta bem. Neste momento, o morto me incomodava bem menos que a morte.

Na sexta de manha uma amiga nos ligou pra avisar do enterro. Eu moro perto do velório. A gente saiu correndo da escola, porque o velório era lá pelas 3:00 da tarde. Mas nos chegamos sozinhas. Ele ainda não estava lá. Fomos pra casa.
No fim nós só iríamos voltar lá depois das 18:00. Quando eu estava me vestindo, eu cheguei a futilidade de me preocupar se eu deveria usar preto, ou ficaria muito dramático, se estava tudo bem usar um moletom vermelho ou ficaria muito alegra. Se era uma gafe usar meu all star imundo. Eu mal consigo acreditar que era isso que me passava na cabeça.
E quando a gente entrou lá, a primeira pessoa conhecida era a irmãzinha da minha amiga, e ela chorava. Ela não estava nem perto da sala. Devia ter acabado de sair de lá.  E eu cumprimentei ela com um abraço e continuei.
 Era como andar para a forca. De repente eu não sabia mais se eu queria estar ali, nem o que eu ia fazer quando eu entrasse na sala. Eu nunca tinha visto um cadáver. Eu não tinha uma idéia real de como era um. Eu sempre imaginei um cadáver como uma pessoa com a pele amarelada, esticada, translúcida como cera. Eu estava com um pouco de medo. Eu não sabia como é que eu deveria agir, era pra eu falar com os pais dele? Era como andar até um altar, só que ao contrario. E então, quase na porta da sala onde ele estava sendo velado, eu vi a amiga que havia me avisado do horário, falando no telefone, e sorrindo. Sorrindo, como se ela estivesse tomando um solzinho num banco de praça, enquanto conversa. Eu me escandalizei por dentro. Eu não sei por que, eu mal conhecia o garoto. Eu tinha entrado no Orkut dele, à tarde, com minha irmã e minha mãe, e ai eu vi quem era. Primeira coisa que eu vi no perfil dele foi “Precisa-se de tecladista”. Isso me acertou na alma. A morte é sempre repentina, ela sempre deixa coisas para traz. Ele escreveu no perfil “precisa-se de tecladista”, sem ter a menos idéia de que ele nunca ia ter um tecladista. Se não tivesse acontecido, ele arrumaria um tecladista, e teria uma banda, e seria feliz e jovem e provavelmente tocaria uma música horrível. Ninguém deveria morrer aos 15 anos. O Orkut dele ainda tinha as fotos da sua formatura do ensino fundamental, fotos com amigos, até fotos com a Helena.
Quando eu de fato entrei na sala, o caixão estava no fundo, a esquerda, e atrás dele, uma outra amiga nossa. Ela nos viu e sorriu. Sorriu. Era abaixar um centímetro os olhos e ela estava de frente pra um amigo de infância morto, e sorriu. Eu não sei, talvez tenha alguma coisa errada comigo, mas eu não tenho humor pra isso não. Era como se ela estivesse num museu, e o cadáver do cara que estudou com ela nos últimos oito anos fosse só mais uma obra de arte a ser exibida. A direita do caixão estavam a mãe dele e uma antiga professora nossa, do ensino fundamental. Nos fomos até elas, cumprimentamos a mão dele – o pai não estava lá e a professora, e minha mãe, que foi conosco começou a conversar com a professora. A mãe se afastou, foi se sentar perto do filho. Em silencio, prostrada.
Minha mãe e a Prof° Luciana começaram a ter aquela conversa que deve ser típica de velório. Como foi, quando foi, o que você acha que vem depois dessa vida... E eu não queria participar dessa conversa. Me parecia absurdo que alguém falasse sobre isso diante da tragédia da morte. Me parecia absurdo que se falasse de qualquer coisa nessa situação. Eu me afastei. Eu sai, fui atrás da amiga do celular. E ela começou a conversar. A falar do namorado dela!
Eu não sei descrever como é que isso aconteceu. Eu costumava dizer que a vida é assim, que as pessoas morrem, acontece. Talvez fosse aquele ambiente. As pessoas que realmente estavam sofrendo, talvez fosse o cadáver dele na sala, que não me deixava esquecer que um menino tinha morrido e deixado o universo para sempre. Nisso a Luciana estava certa, estava tudo errado. E aquelas meninas sorrindo, fofocado como se a gente tivesse se encontrado num shopping! Elas não eram capazes de ver, de entender isso? Que alguém tinha morrido, que alguém tinha se perdido para sempre, alguém com sonhos, com um futuro, que nunca mais ia sair com os amigos, nem fazer idiotices, nem ficar bêbado, nem amar mais ninguém, porque estava morto. Como é que as pessoas não estavam gritando, diante daquela injustiça, daquele sofrimento? Como é que o mundo não parou, naquele instante, para que todos olhassem e chorassem porque uma pessoa boa tinha partido, e não ia mais voltar? Como alguém pode seguir sua vida normal depois de algo assim?
Eu nunca tive esse tipo de sensibilidade antes. Eu simplesmente não conseguia me conformar. Me conformar que a vida fosse assim tão simples. A morte desse menino me abalou um jeito irracional, que eu não esperava. Eu não sei o que eu imaginava que fosse acontecer lá, mas isso bateu fundo em mim.
Quantos adolescentes, jovens e adultos morrem todos os dias, sem saibamos? Quantos velhos deixam o mundo sem uma última visita da família, sem que ninguém se aperceba do que aconteceu ao mundo? As pessoas são feitas de uma combinação única de características, e todos os dias, milhões de combinações se perdem. É como se a todo momento espécies fascinantes estivessem entrando em extinção.
Não digo que todos deveriam viver. Talvez algumas pessoas não mereçam viver. Mas de alguma forma, o que aconteceu com esse garoto, que eu mal conhecia, me mudou. Eu continuo vendo os detalhes. As coroas de flores murchando. O barulho do ventilador. As mãos dele segurando um terço, as unhas arrocheadas, a boca cerrada. Como pode alguém dizer que os mortos parecem estar dormindo? Ele foi enterrado com a mesma gravata, talvez o mesmo terno da formatura nove meses antes. Tanta coisa acontece em nove meses!
Depois eu soube que ele sempre esteve doente. Sempre foi frágil. Que metade das coisas que ele fez, os pais dele só deixaram fazer por que já se sabia que ele não ia viver muito. Depois eu soube muita coisa. Mas depois já era tarde. Só o antes importa.
De alguma forma, eu acho que isso me mudou. Eu agora sei o valor da morte, conheço a experiência da morte. Eu não vou mais me esquecer.